Daniel Vorcaro e Paulo Henrique entram em contradição sobre carteira de créditos vendida pelo Master
Sigilo dos depoimentos foi levantado pelo ministro Dias Toffoli.
BRASÍLIA – Uma comunicação enviada pelo Banco Master ao Banco Central em 7 de novembro de 2024 revela que o banqueiro Daniel Vorcaro se comprometeu a adotar uma série de medidas para melhorar a governança corporativa do Master e a recompor a saúde financeira do banco em um prazo de seis meses, até maio de 2025.
O ofício, ao qual o Estadão teve acesso, é uma resposta do Master a um termo de compromisso enviado pelo BC. O documento mostra que o Master recebeu uma espécie de ultimato da autoridade monetária sob a gestão do ex-presidente Roberto Campos Neto, um ano antes de ser liquidado pelo atual presidente Gabriel Galípolo, em novembro de 2025.
Procurada, a defesa de Vorcaro afirmou que o banco vinha cumprindo as medidas estabelecidas junto ao Banco Central.
“A defesa de Daniel Vorcaro esclarece que os compromissos assumidos pelo Banco Master junto ao Banco Central em novembro de 2024 estavam sendo cumpridos, conforme demonstrado no próprio acompanhamento realizado ao longo de 2025″, diz a nota (veja íntegra abaixo).
Campos Neto e Banco Central não se manifestaram.

O documento enviado ao Banco Central, assinado por Daniel Vorcaro, enfraquece a tese do banqueiro de que ele foi pego de surpresa com a liquidação do Master. A ideia de que o BC “se precipitou” é também objeto de análise por parte do ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União (TCU).
Em depoimento à PF, o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, revelou que, no dia em que foi liquidado, o Master tinha apenas R$ 4 milhões em caixa e mais de R$ 127 milhões a pagar na mesma semana, como mostrou o Estadão/Broadcast — o que mostra que o banco não tinha mais dinheiro para honrar suas dívidas, que só estavam, há meses, sendo pagas pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O banco também já não recolhia mais de R$ 2 bilhões exigidos em depósitos compulsórios ao Banco Central.
Em relatório enviado ao TCU, o BC informa que a partir de novembro de 2024 houve “diversos episódios de recolhimento insuficiente dos depósitos compulsórios por parte do conglomerado” do Master.
O compromisso firmado pelo Master com o Banco Central aconteceu após uma série de troca de ofícios com o órgão ao longo de 2024, com questionamentos sobre a situação do banco. Esses documentos estão sob sigilo imposto pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli.
Como mostrou o Estadão, Campos Neto sabia dos problemas do Master e evitou intervir no banco, mas deu um prazo para a instituição melhorar seus indicadores, práticas de governança e gestão de risco. A medida foi adotada na reta final de sua gestão, que terminou em 31 de dezembro de 2024.
Coube ao BC sob Gabriel Galípolo acompanhar o cumprimento desse termo de compromisso e aguardar até o fim do prazo, maio de 2025, antes que pudesse tomar qualquer iniciativa mais contundente contra o Master. Ainda assim, a liquidação só aconteceu seis meses depois, em novembro de 2025.
Entre as medidas exigidas pelo BC estavam que o banco passasse a ter ativos líquidos em caixa para poder cobrir os vencimentos das dívidas de curto prazo. Isso mostra que o banco em 2024 já estava com baixa liquidez para honrar os CDBs que emitiu pagando altas taxas de juros.
Enquanto não cumprisse os termos, o Master ficava proibido de fazer operações de longo prazo com crédito corporativo. Os investigadores suspeitam que esse esquema envolvia empréstimos para empresas que depois foram aplicados em fundos ligados à Reag Investimentos — investigada nas operações Carbono Oculto e Compliance Zero.
Com essa porta fechada pelo BC, Vorcaro teria colocado em prática um outro esquema fraudulento, segundo a Polícia Federal, para injetar liquidez no banco. O Master acelera a venda de crédito consignado para o Banco de Brasília (BRB), a partir de janeiro de 2025, mas desta vez fazendo uma triangulação com uma empresa recém-criada chamada Tirreno.
Pela versão da PF, a Tirreno foi uma empresa de fachada criada pelo próprio Master para fabricar carteiras de crédito e revendê-las ao BRB. De janeiro a junho de 2025, o BRB pagou ao Master R$ 12,2 bilhões, sendo R$ 6,7 bilhões pelas carteiras falsas e mais R$ 5,5 bilhões de prêmio. Em paralelo, o Master fechou acordo para ser comprado pelo BRB, no dia 28 de março, com a formação de uma nova instituição que teria Vorcaro no seu conselho de administração.
Em depoimento à PF, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa alega que o BRB não sabia que as carteiras de crédito eram originadas pela Tirreno, e que isso foi omitido por Vorcaro. Foi essa suposta fraude que levou Vorcaro à prisão. O contrato, segundo Costa, era para a compra de carteiras próprias do banco, que já vinham acontecendo desde junho de 2024, e por isso o banco estatal teria sido enganado.
“Contratualmente, a obrigação do Master era que as carteiras fossem originadas por eles”, disse Costa.
Durante a acareação entre os dois, Vorcaro afirmou que o BRB sabia que as carteiras eram de terceiros, sendo esse um dos pontos controversos entre as duas defesas.
O documento do Master enviado ao Banco Central tinha como destinatários o chefe do Departamento de Supervisão Bancária do BC Belline Santana e o chefe adjunto Paulo Sérgio Neves de Souza. Ambos foram afastados do cargo após a abertura de sindicância interna do Banco Central com a liquidação do Master.
O que o Master se comprometeu a fazer em seis meses
O ofício, assinado pelo banqueiro Daniel Vorcaro e o seu sócio Angelo Antonio Ribeiro da Silva, informa que o Master, “no intuito de reforçar seu compromisso de manter uma governança corporativa efetiva e gestão de riscos proativa, vai adotar as seguintes medidas internas, a serem cumpridas em até 180 dias a partir desta data”.
Uma das medidas se referia à manutenção do indicador de cobertura de liquidez de curto prazo. Essa determinação significa que o banco teria de manter ativos com alta qualidade e que pudessem ser vendidos rapidamente para honrar a suas dívidas de curtíssimo prazo. Para cara R$ 1 de dívida a vencer, teria de ter em caixa R$ 1 desses ativos.
Um dos problemas do Master era manter ativos de baixa liquidez, como precatórios e direitos creditórios eu seu balanço, que só seriam vendido rapidamente com descontos elevados, que abririam um buraco no balanço do banco.
Outras medidas exigidas pelo BC eram o fortalecimento da governança corporativa do Master e a manutenção do patrimônio de referência a uma taxa mínima de 12,5% em relação aos seus ativos ponderados pela taxa de risco.
“Fortalecimento da governança corporativa do seu conglomerado com a institucionalização de sua Diretoria Executiva, com decisões de nível colegiado, e o estabelecimento de comitês e fóruns efetivos, a exemplo de riscos e do comitê de investimentos”, diz o documento.
O que diz a defesa de Vorcaro
“A defesa de Daniel Vorcaro esclarece que os compromissos assumidos pelo Banco Master junto ao Banco Central em novembro de 2024 estavam sendo cumpridos, conforme demonstrado no próprio acompanhamento realizado ao longo de 2025.
“Como consta no depoimento prestado por Daniel Vorcaro, o banco vinha adotando as medidas pactuadas, incluindo reforço de governança e de capital, ajustes operacionais, venda de ativos e busca ativa de soluções de mercado. A negociação com o BRB fez parte desse rol de medidas.
“Essas providências foram comunicadas às autoridades regulatórias e implementadas dentro dos parâmetros técnicos exigidos. Até o momento da liquidação, o Banco Master permanecia solvente, com ativos superiores aos passivos, conforme demonstrações financeiras auditadas e monitoradas pelo Banco Central.
“Daniel Vorcaro segue colaborando com as autoridades competentes e confia que a apuração técnica completa dos fatos permitirá esclarecer adequadamente o contexto das decisões administrativas tomadas.”
Fonte ONU