Diante da disputa e o enfrentamento pela liderança global iniciada pelos Estados Unidos contra a China, a América Latina deve adotar cautela. A recomendação é de Ignacio Bartesaghi, diretor do Instituto de Negócios Internacionais da Universidad Católica del Uruguay e doutor em Relações Internacionais.
Ele disse ainda, que “as relações internacionais modernas exigem muito pragmatismo, por isso descartar manter relações profundas com as principais potências mundiais nos pontos que favorecem os países da região apenas por pressões políticas externas não deveria ser o caminho”.
As relações entre a China e a América Latina continuam sendo muito boas, apesar das pressões de Trump sobre os países que desejam aprofundar suas relações com a potência asiática. A influência dos Estados Unidos gerou algumas dificuldades, como se observa nos casos do Panamá, Argentina e México, mas, de qualquer forma, as relações com a China são muito sólidas e continuarão apresentando um bom desempenho.
A China deu passos em direção ao investimento em infraestrutura estratégica, especialmente no Peru, no porto de Chancay, mas antes já tinha grande presença no Canal do Panamá, nos importantes investimentos energéticos no Brasil, na mineração e no cobre em outros países da região.

Mais recentemente, é preciso destacar o corredor bioceânico anunciado pelo Brasil, que conectará os portos do sul desse país, no Atlântico, com o Pacífico, através do Peru. Também é preciso destacar os investimentos da China no metrô de Bogotá, o que confirma a importância que a China terá nos investimentos estratégicos tão necessários à América Latina para melhorar seus níveis de competitividade e a qualidade de vida de sua população.
As relações da China com a América Latina são pautadas pelo comércio, mas agora também pelos investimentos e especialmente pela importância da cooperação. A China tem desenvolvido opções de vínculos institucionais com o seu país através dos Brics (caso do Brasil): os bancos multilaterais (Novo Banco de Desenvolvimento e o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, com vários membros da região); a Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI); a Organização Internacional do Bambu e do Vime (Inbar); e os intercâmbios políticos através do Grupo Celac–China, entre outras organizações e espaços.
Nesse sentido, deve-se levar em conta que a relação da China com a região vai muito além do comércio e se ampliou consideravelmente nos últimos anos, o que também gerou preocupação nos Estados Unidos e nos países europeus, que reagiram com maiores intervenções e propostas de planos de cooperação.
Quais são os impactos que a ferrovia do Atlântico ao Pacífico pode gerar na América Latina?
Trata-se de uma obra de suma importância para a região, que pode ter impactos muito distintos dependendo do país. Sem dúvida, esse novo corredor permitirá a captação de novos investimentos e possíveis conexões logísticas (por exemplo, com hidrovia), que possibilitem uma aceleração da infraestrutura física na região.
O desafio será integrar as conexões com a possibilidade de aproveitar outras vias fluviais, rodovias e marítimas já existentes, incentivando investimentos complementares com mais redes ferroviárias e rodovias além das previstas no corredor principal.
Sem dúvida, trata-se de um investimento estratégico que gerará novas condições de competitividade para a região, além de uma possível nova fase na integração regional, que historicamente tem sido limitada pelos problemas associados à falta de infraestrutura.
Se continuar Trump no poder através de JD Vance ou outro político alinhado à sua visão geopolítica, os investimentos dessa natureza (portos, corredores, tecnologia de comunicações, cooperação em armamento etc.) encontrarão forte oposição dos Estados Unidos e, em menor medida, também da União Europeia.
Como os países latino-americanos estão reagindo ao incômodo dos EUA diante dos projetos chineses no continente?
Trata-se de um dos principais problemas enfrentados não apenas pelos países latino-americanos, mas que será uma das maiores dificuldades para todos os países em nível internacional.
A disputa e o enfrentamento pela liderança global iniciada pelos Estados Unidos contra a China é, sem dúvida, o problema de maior dimensão nas relações internacionais modernas e gerará tensões significativas nos próximos anos, tendo relação direta com muitos dos conflitos em curso e emergentes.
Os países da região deveriam atravessar essas tensões sem tomar partido, mas naturalmente não é o que acontecerá em alguns casos. Já vimos decisões do México afetando os interesses da China para evitar conflitos com os Estados Unidos, especialmente por causa do acordo T-MEC, que será renegociado; o caso do Panamá pelos investimentos chineses no Canal do Panamá e seu recente debate; o que aconteceu com a Argentina, comprometida pelo apoio financeiro de bilhões de dólares de Trump em troca de não aprofundar suas relações com a China, entre outros casos.
Além disso, deve-se levar em conta que na região ainda há dois países de certa relevância sub-regional que mantêm relações diplomáticas com Taiwan (Paraguai e Guatemala), o que também é um assunto a considerar e é aproveitado pelos Estados Unidos.
Em definitivo, trata-se de um assunto complexo que pode afetar, em alguns casos, as relações da região com a China, especialmente até termos mais certezas sobre o que ocorrerá no nível político nos Estados Unidos nos próximos anos.
Enquanto isso, o recomendável é cautela, evitar posicionamentos extremos ou favoritismos, dado que a relação da América Latina tanto com os Estados Unidos quanto com a China é estratégica e muito importante.
As relações internacionais modernas exigem muito pragmatismo, por isso descartar manter relações profundas com as principais potências mundiais nos pontos que favorecem os países da região apenas por pressões políticas externas não deveria ser o caminho.

Fonte Monitor Mercantil